sábado, 30 de junho de 2012

Índia


Eu já disse isso antes, mas vou reforçar: é incrível como, a cada leitura, o livro é "recebido" de forma diferente por quem o lê. Digo isso por mim, é claro; no entanto, eu creio que várias pessoas também pensem da mesma forma.


Isso porque quando eu li Comer Rezar Amar da primeira vez, a parte que mais me marcou do livro foi a passagem da autora pela Índia. Desta segunda vez, a minha parte preferida está sendo a da Itália.


Quando eu li o livro pela primeira vez, marquei várias passagens da viagem pela Índia, enquanto que desta vez eu marquei muito mais a viagem pela Itália.


Muitas das coisas que li agora nesta parte da Índia de certa forma eu já aprendi, de uma maneira ou de outra. Talvez por isso não me tenha chamado taaanto a atenção. 


É engraçado como adequamos a leitura às nossas necessidades, consciente ou inconscientemente. A cada leitura percebemos o livro de maneiras diferentes.


De qualquer forma, apesar de eu não ter marcado tanto o livro desta vez, a Índia não deixa de ter seu mérito. Essa é uma parte belíssima do livro, na qual a autora vai em busca da própria consciência. Pode-se dizer que ela se enfrenta (e com muita intensidade) nesta parte do livro.


Eis alguns trechos que marquei:


"Os iogues, no entanto, dizem que o descontentamento humano é um simples caso de identidade equivocada. Nós somos infelizes porque achamos que somos meros indivíduos, sozinhos com nossos medos e falhas, com nosso ressentimento e nossa mortalidade. Acreditamos equivocadamente que nossos pequenos e limitados egos constituem toda a nossa natureza. Não conseguimos reconhecer nossa natureza divina mais profunda. Não percebemos que, em algum lugar dentro de nós, existe um Eu supremo que está eternamente em paz. Esse Eu supremo é a nossa verdadeira identidade, universal e divina. Se você não perceber essa verdade, dizem os iogues, estará sempre desesperado, ideia expressa de forma inteligente na seguinte frase irritada do filósofo estoico grego Epíteto: 'Você leva Deus dentro de si, seu pobre desgraçado, e não sabe disso'".

"Eu estava tomada por uma tristeza quente, poderosa, e adoraria ter me entregado ao reconforto das lágrimas, mas tentei com força não fazê-lo, lembrando-me de algo que minha Guru dissera certa vez: que você nunca deveria dar a si mesmo a oportunidade de se entregar porque, quando o faz, isso se torna uma tendência, e nunca mais para de acontecer. Em vez disso, você precisa treinar ficar forte".

"Outro dia um monge me disse:
- O local de descanso da mente é o coração. A única coisa que a mente escuta o dia inteiro são sinos dobrando, barulho e discussão, e tudo que ela quer é tranquilidade. O único lugar em que a mente vai encontrar paz é dentro do silêncio do coração. É para lá que você tem que ir".

"As pessoas acham que a alma gêmea é o encaixe perfeito, e é isso que todo mundo quer. Mas a verdadeira alma gêmea é um espelho, a pessoa que mostra tudo que está prendendo você, a pessoa que chama a sua atenção para você mesmo para que você possa mudar a sua vida. Uma verdadeira alma gêmea é provavelmente a pessoa mais importante que você vai conhecer, porque elas derrubam as suas paredes e te acordam com um tapa. Mas viver com uma alma gêmea para sempre? Não. Dói demais. As almas gêmeas só entram na sua vida para revelar a você uma outra camada de você mesmo, e depois vão embora".

"Há tanta coisa no meu destino que não posso controlar, mas outras coisas estão, sim, sob a minha jurisdição. Existem determinados bilhetes de loteria que posso comprar, aumentando assim, minhas chances de encontrar satisfação. Posso decidir como gasto meu tempo, com quem interajo, com quem compartilho meu corpo, minha vida, meu dinheiro e minha energia. Posso decidir o que como, o que leio e o que estudo. Posso escolher como vou encarar as circunstâncias desafortunadas da minha vida - se as verei como maldições ou como oportunidades (e, quando não tiver forças para adotar o ponto de vista mais otimista, porque estou sentindo pena demais de mim mesma, posso decidir continuar tentando mudar minha atitude). Posso escolher minhas palavras e o tom de voz com que falo com os outros. E, acima de tudo, posso escolher meus pensamentos".

"Você precisa aprender a escolher os seus pensamentos do mesmo jeito que escolhe as roupas que vai usar a cada dia. Isso é uma capacidade que você pode aprimorar. Se você quiser tanto assim controlar as coisas da sua vida, trabalhe com a mente. Ela é a única coisa que você deveria estar tentando controlar. Largue todo o resto, menos isso. Porque, se você não conseguir dominar seu pensamento, vai ter muitos problemas para sempre". 

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Itália

No início do ano eu tracei algumas metas para mim e uma delas era a de que eu leria pelo menos um livro por mês.

Apesar dos pesares, tenho conseguido cumprir essa meta mensal e o livro do mês é esse:


Muitas pessoas já leram, muitas pessoas já viram o filme. Eu li e assisti ao filme. Como sempre, na minha humilde opinião, o livro é beeem melhor.

Agora estou relendo-o e isso está sendo muito bom. É engraçado como nós gravamos apenas aquilo que nós queremos. O interessante em se ler novamente um livro é que reparamos em detalhes que não tínhamos dado a menor importância na primeira leitura (ou nas leituras anteriores).

Para quem não conhece, esse livro fala sobre a história de uma mulher que estava com uma série de problemas pessoais e decidiu buscar o equilíbrio viajando. Ela viajou durante um ano, passando quatro meses na Itália, quatro meses na Índia e quatro meses na Indonésia. Daí o nome do livro.

Na Itália, ela vai em busca do prazer. Mas o prazer na forma do idioma (que ela sempre quis aprender) e da comida. Como ela estava sempre pulando de um relacionamento para o outro, ela decidiu que durante esse ano ela não se envolveria com ninguém. Seria uma jornada pessoal mesmo.

A história dela é bem comum, na verdade. Nisso eu me refiro aos problemas pelos quais ela teve que passar. Talvez o diferencial esteja na possibilidade que ela teve de viajar para outros países, cada um com seu objetivo.

E justamente por se tratar de uma história comum é que eu gosto tanto dela. Ela fala sobre coisas que podem acontecer (e acontecem) com qualquer pessoa. E a forma como ela escreve, a forma como ela desenvolve a história, para mim, é maravilhosa.

Sim, eu sou fã desse livro. Eu sou super cuidadosa com meus livros, mas em alguns casos eu abro a exceção de marcar o que eu acho interessante.

Eu já terminei a parte da Itália e vou postar aqui os fragmentos que achei mais interessantes. Eu acho que vale a pena ler até o final, mas isso não sou quem decide (afinal, eu já li o livro hehehe).

"Aquele não era o momento para eu arrumar uma história de amor e (consequência óbvia e inevitável) complicar ainda mais a minha já tão enrolada vida. Aquele era o momento para eu procurar o tipo de cura e de paz que só podem vir da solidão".

"A única coisa mais inconcebível do que ir embora era ficar; a única coisa mais impossível do que ficar era ir embora. Eu não queria destruir nada nem ninguém. Só queria sair de fininho pela porta dos fundos, sem causar alvoroço nem consequências, e depois só parar de correr quando chegasse à Groenlândia".

 "A verdadeira sabedoria fornece a única resposta possível para determinado instante e, naquela noite, voltar para a cama era a única resposta possível. Volte para a cama, disse aquela voz onisciente, porque você não precisa saber a resposta final nesse instante, às três horas da manhã de uma quinta-feira de novembro. Volte para a cama, porque eu amo você. Volte para a cama, porque a única coisa que você precisa fazer por enquanto é descansar um pouco e cuidar bem de si mesma até saber a resposta. Volte para a cama para que, quando a tempestade chegar, você esteja forte o suficiente para lidar com ela. E a tempestade vai chegar, meu bem. Em breve. Mas não esta noite. Portanto: Volte para a cama, Liz".

"A Solidão olha aquela cena e dá um suspiro, em seguida deita-se na minha cama e se cobre com as cobertas, inteiramente vestida, de sapato e tudo. Estou sentindo que vai me obrigar a dormir com ela de novo esta noite".

"Quando se está perdido nessa selva, algumas vezes é preciso algum tempo para você se dar conta de que está perdido. Durante muito tempo, você pode se convencer de que só se afastou alguns metros do caminho, de que a qualquer momento irá conseguir voltar para a trilha marcada. Então a noite cai, e torna a cair, e você continua sem a menor ideia de onde está, e é hora de reconhecer que se afastou tanto do caminho que sequer sabe mais em que direção o sol nasce".

"Ultimamente, quando me sinto sozinha, penso: Então fique sozinha, Liz. Aprenda a lidar com a solidão. Aprenda a conhecer a solidão. Acostume-se a ela, pela primeira vez na sua vida. Bem-vinda à experiência humana. Mas nunca mais use o corpo ou as emoções de outra pessoa como um modo de satisfazer seus próprios anseios não realizados".

"Eu me sentia o solo cansado da roça de algum agricultor, explorado muito além do limite e precisando passar um tempo ocioso. Então foi por isso que parei".

"Virginia Woolf escreveu: 'Sobre o imenso continente da vida de uma mulher recai a sombra de uma espada'. De um lado dessa espada, disse ela, estão a convenção, a tradição e a ordem, onde 'tudo é correto'. Mas, do outro lado dessa espada, se você for louca o suficiente para atravessar a sombra e escolher uma vida que não segue a convenção, 'tudo é confusão. Nada segue um curso regular'. Seu argumento era que atravessar a sombra dessa espada pode proporcionar à mulher uma existência muito mais interessante, mas podem apostar que ela também será mais perigosa".

"O Bhagavad Gita - aquele antigo texto iogue indiano - diz que é melhor viver o seu próprio destino de forma imperfeita do que viver a imitação da vida de outra pessoa com perfeição. Então agora comecei a viver a minha própria vida. Por mais imperfeita e atabalhoada que ela possa parecer, ela combina comigo, de alto a baixo".

"Mas seria tão ruim assim viver desse jeito só por algum tempo? Só por alguns meses da vida de uma pessoa, seria tão terrível assim viajar pelo tempo sem outra ambição que não encontrar a próxima refeição deliciosa? Ou aprender a falar um idioma sem nenhum propósito maior do que o fato de que ele é agradável aos seus ouvidos? Ou tirar um cochilo em um jardim, em uma nesga de sol, no meio do dia, bem ao lado de seu chafariz preferido? E depois fazer a mesma coisa no dia seguinte?"

"Não quero ofender ninguém fazendo uma comparação exagerada entre mim e o sofredor povo siciliano. As tragédias da minha vida foram de uma natureza pessoal, e em grande parte criadas por mim mesma, e não foram opressivas em proporções épicas. Enfrentei um divórcio e uma depressão, não séculos de uma tirania assassina. Tive uma crise de identidade, mas também tive recursos (financeiros, artísticos e emocionais) com os quais tentei resolvê-la. Mesmo assim, direi que a mesma coisa que ajudou gerações de sicilianos a manter sua dignidade ajudou-me a recuperar a minha - a saber, a ideia de que apreciar o prazer pode ser a âncora de humanidade de uma pessoa. Acho que foi isso que Goethe quis expressar quando disse que é preciso vir até aqui, à Sicília, para entender a Itália. E imagino que seja exatamente isso que senti quando precisei vir até aqui, à Itália, para entender a mim mesma.
Foi em uma banheira em Nova York, lendo em um dicionário palavras em italiano em voz alta, que comecei pela primeira vez a curar minha alma. Minha vida estava despedaçada, e eu estava tão irreconhecível para mim mesma que provavelmente não teria reconhecido meu próprio rosto em uma identificação policial. No entanto, quando comecei a aprender italiano, senti um vislumbre de felicidade, e, quando você sente um tênue potencial de felicidade depois de épocas tão sombrias, precisa agarrar essa felicidade com todas as suas forças, e não soltá-la até ela arrastar você para fora da lama - não se trata de egoísmo, mas sim de libertação. Você recebeu a vida; é seu dever (e também seu direito como ser humano) encontrar alguma coisa de belo nessa vida, por mais ínfima que seja.
Cheguei à Itália abatida e magra. Ainda não sabia o que eu merecia. Talvez eu ainda não saiba totalmente o que mereço. Porém, o que sei é que, ultimamente, eu me recuperei - graças à alegria de prazeres inofensivos - e tornei-me alguém muito mais intacto. A maneira mais fácil, mais fundamentalmente humana de dizer isso é que eu engordei. Existo mais agora do que há quatro meses atrás. Deixarei a Itália perceptivelmente maior do que quando cheguei aqui. E irei embora com a esperança de que a expansão de uma pessoa - a ampliação de uma vida - seja realmente um ato de valor neste mundo. Mesmo que essa vida, só dessa vezinha por acaso seja apenas minha e de mais ninguém". 
 
 
 

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Quando é hora de parar


É, definitivamente está na hora de eu parar e organizar a bagunça que está a minha vida.


Ontem sofri um acidente de carro. Utrapassei o sinal vermelho em um cruzamento e o motociclista (que estava correto) atingiu a lateral do meu carro. Meu carro ficou bem amassado, com os vidros quebrados e foi guinchado. O motoqueiro quebrou o braço, ao que parece também quebrou o joelho e agora está no hospital.


Eu não tenho habilitação, estava sem os documentos do carro e o IPVA está atrasado. Ou seja, me dei mal bonito.


Ainda hoje quero ir visitar o rapaz no hospital e oferecer toda a ajuda que puder dar.


Não fugi do local, não pedi pra outra pessoa assumir a responsabilidade. Eu mesma assumi tudo, afinal de contas eu era a responsável.


No final das contas, constatei de dei (demos) muita sorte. No meu carro estavam mais duas pessoas e ninguém se feriu. O motoqueiro poderia ter morrido. E, graças a Deus, não precisei ir à delegacia.


Enfim, essa foi uma situação traumática que veio reforçar de uma vez por todas tudo o que eu já estava pressentindo: eu tenho que me equilibrar em TODOS os campos da minha vida.


Há alguns dias eu já vinha pensando que está mais do que na hora de terminar as coisas que comecei (essa minha mania feia de começar e não terminar as coisas). E eu já estava pensando em começar exatamente pelo carro: tirar minha habilitação, pagar as parcelas atrasadas, mandar para oficina para consertar uns probleminhas que ele estava dando e quitar os impostos atrasados.


Eu já estou procurando o meu equilíbrio pessoal há algum tempo, mas agora esse REALMENTE terá que ser o meu foco. Está tudo muito desorganizado, muito bagunçado, e eu estou cansada de levar a minha vida desse jeito.


Eu não quero dinheiro, eu não quero luxo. Eu apenas quero viver em paz, com tranquilidade.


Minha prioridade agora é cuidar dos danos causados ao motociclista. Também terei que lidar com a família dele e eu espero que tudo se resolva sem conflitos.


Além disso, tenho que organizar meu quarto que novamente está uma bagunça terrível.


Vou me dedicar com mais afinco à minha espiritualidade, e quando eu estiver melhor verei o que vou fazer da minha vida (principalmente em termos profissionais).


Vamos lá, então.