Apesar dos pesares, tenho conseguido cumprir essa meta mensal e o livro do mês é esse:
Muitas pessoas já leram, muitas pessoas já viram o filme. Eu li e assisti ao filme. Como sempre, na minha humilde opinião, o livro é beeem melhor.
Agora estou relendo-o e isso está sendo muito bom. É engraçado como nós gravamos apenas aquilo que nós queremos. O interessante em se ler novamente um livro é que reparamos em detalhes que não tínhamos dado a menor importância na primeira leitura (ou nas leituras anteriores).
Para quem não conhece, esse livro fala sobre a história de uma mulher que estava com uma série de problemas pessoais e decidiu buscar o equilíbrio viajando. Ela viajou durante um ano, passando quatro meses na Itália, quatro meses na Índia e quatro meses na Indonésia. Daí o nome do livro.
Na Itália, ela vai em busca do prazer. Mas o prazer na forma do idioma (que ela sempre quis aprender) e da comida. Como ela estava sempre pulando de um relacionamento para o outro, ela decidiu que durante esse ano ela não se envolveria com ninguém. Seria uma jornada pessoal mesmo.
A história dela é bem comum, na verdade. Nisso eu me refiro aos problemas pelos quais ela teve que passar. Talvez o diferencial esteja na possibilidade que ela teve de viajar para outros países, cada um com seu objetivo.
E justamente por se tratar de uma história comum é que eu gosto tanto dela. Ela fala sobre coisas que podem acontecer (e acontecem) com qualquer pessoa. E a forma como ela escreve, a forma como ela desenvolve a história, para mim, é maravilhosa.
Sim, eu sou fã desse livro. Eu sou super cuidadosa com meus livros, mas em alguns casos eu abro a exceção de marcar o que eu acho interessante.
Eu já terminei a parte da Itália e vou postar aqui os fragmentos que achei mais interessantes. Eu acho que vale a pena ler até o final, mas isso não sou quem decide (afinal, eu já li o livro hehehe).
"Aquele não era o momento para eu arrumar uma história de amor e (consequência óbvia e inevitável) complicar ainda mais a minha já tão enrolada vida. Aquele era o momento para eu procurar o tipo de cura e de paz que só podem vir da solidão".
"A única coisa mais inconcebível do que ir embora era ficar; a única coisa mais impossível do que ficar era ir embora. Eu não queria destruir nada nem ninguém. Só queria sair de fininho pela porta dos fundos, sem causar alvoroço nem consequências, e depois só parar de correr quando chegasse à Groenlândia".
"A verdadeira sabedoria fornece a única resposta possível para determinado instante e, naquela noite, voltar para a cama era a única resposta possível. Volte para a cama, disse aquela voz onisciente, porque você não precisa saber a resposta final nesse instante, às três horas da manhã de uma quinta-feira de novembro. Volte para a cama, porque eu amo você. Volte para a cama, porque a única coisa que você precisa fazer por enquanto é descansar um pouco e cuidar bem de si mesma até saber a resposta. Volte para a cama para que, quando a tempestade chegar, você esteja forte o suficiente para lidar com ela. E a tempestade vai chegar, meu bem. Em breve. Mas não esta noite. Portanto: Volte para a cama, Liz".
"A Solidão olha aquela cena e dá um suspiro, em seguida deita-se na minha cama e se cobre com as cobertas, inteiramente vestida, de sapato e tudo. Estou sentindo que vai me obrigar a dormir com ela de novo esta noite".
"Quando se está perdido nessa selva, algumas vezes é preciso algum tempo para você se dar conta de que está perdido. Durante muito tempo, você pode se convencer de que só se afastou alguns metros do caminho, de que a qualquer momento irá conseguir voltar para a trilha marcada. Então a noite cai, e torna a cair, e você continua sem a menor ideia de onde está, e é hora de reconhecer que se afastou tanto do caminho que sequer sabe mais em que direção o sol nasce".
"Ultimamente, quando me sinto sozinha, penso: Então fique sozinha, Liz. Aprenda a lidar com a solidão. Aprenda a conhecer a solidão. Acostume-se a ela, pela primeira vez na sua vida. Bem-vinda à experiência humana. Mas nunca mais use o corpo ou as emoções de outra pessoa como um modo de satisfazer seus próprios anseios não realizados".
"Eu me sentia o solo cansado da roça de algum agricultor, explorado muito além do limite e precisando passar um tempo ocioso. Então foi por isso que parei".
"Virginia Woolf escreveu: 'Sobre o imenso continente da vida de uma mulher recai a sombra de uma espada'. De um lado dessa espada, disse ela, estão a convenção, a tradição e a ordem, onde 'tudo é correto'. Mas, do outro lado dessa espada, se você for louca o suficiente para atravessar a sombra e escolher uma vida que não segue a convenção, 'tudo é confusão. Nada segue um curso regular'. Seu argumento era que atravessar a sombra dessa espada pode proporcionar à mulher uma existência muito mais interessante, mas podem apostar que ela também será mais perigosa".
"O Bhagavad Gita - aquele antigo texto iogue indiano - diz que é melhor viver o seu próprio destino de forma imperfeita do que viver a imitação da vida de outra pessoa com perfeição. Então agora comecei a viver a minha própria vida. Por mais imperfeita e atabalhoada que ela possa parecer, ela combina comigo, de alto a baixo".
"Mas seria tão ruim assim viver desse jeito só por algum tempo? Só por alguns meses da vida de uma pessoa, seria tão terrível assim viajar pelo tempo sem outra ambição que não encontrar a próxima refeição deliciosa? Ou aprender a falar um idioma sem nenhum propósito maior do que o fato de que ele é agradável aos seus ouvidos? Ou tirar um cochilo em um jardim, em uma nesga de sol, no meio do dia, bem ao lado de seu chafariz preferido? E depois fazer a mesma coisa no dia seguinte?"
"Não quero ofender ninguém fazendo uma comparação exagerada entre mim e o sofredor povo siciliano. As tragédias da minha vida foram de uma natureza pessoal, e em grande parte criadas por mim mesma, e não foram opressivas em proporções épicas. Enfrentei um divórcio e uma depressão, não séculos de uma tirania assassina. Tive uma crise de identidade, mas também tive recursos (financeiros, artísticos e emocionais) com os quais tentei resolvê-la. Mesmo assim, direi que a mesma coisa que ajudou gerações de sicilianos a manter sua dignidade ajudou-me a recuperar a minha - a saber, a ideia de que apreciar o prazer pode ser a âncora de humanidade de uma pessoa. Acho que foi isso que Goethe quis expressar quando disse que é preciso vir até aqui, à Sicília, para entender a Itália. E imagino que seja exatamente isso que senti quando precisei vir até aqui, à Itália, para entender a mim mesma.
Foi em uma banheira em Nova York, lendo em um dicionário palavras em italiano em voz alta, que comecei pela primeira vez a curar minha alma. Minha vida estava despedaçada, e eu estava tão irreconhecível para mim mesma que provavelmente não teria reconhecido meu próprio rosto em uma identificação policial. No entanto, quando comecei a aprender italiano, senti um vislumbre de felicidade, e, quando você sente um tênue potencial de felicidade depois de épocas tão sombrias, precisa agarrar essa felicidade com todas as suas forças, e não soltá-la até ela arrastar você para fora da lama - não se trata de egoísmo, mas sim de libertação. Você recebeu a vida; é seu dever (e também seu direito como ser humano) encontrar alguma coisa de belo nessa vida, por mais ínfima que seja.
Cheguei à Itália abatida e magra. Ainda não sabia o que eu merecia. Talvez eu ainda não saiba totalmente o que mereço. Porém, o que sei é que, ultimamente, eu me recuperei - graças à alegria de prazeres inofensivos - e tornei-me alguém muito mais intacto. A maneira mais fácil, mais fundamentalmente humana de dizer isso é que eu engordei. Existo mais agora do que há quatro meses atrás. Deixarei a Itália perceptivelmente maior do que quando cheguei aqui. E irei embora com a esperança de que a expansão de uma pessoa - a ampliação de uma vida - seja realmente um ato de valor neste mundo. Mesmo que essa vida, só dessa vezinha por acaso seja apenas minha e de mais ninguém".

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